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* Por Gabriel Duwe de Lima e Maria Eduarda Dalponte

A pandemia de Covid-19 provocou mudanças em toda a rede estadual de ensino, incluindo os alunos da Educação Especial. Também provocou alterações no plano pedagógico de 6.415 educadores que trabalham com este público, nas funções de segundo professor, professor bilíngue, intérprete da libras e professor do atendimento educacional especializado (AEE), atendendo a 14.193 alunos. Se antes os estudantes aprendiam na sala de aula, agora usam a criatividade e o suporte de ferramentas tecnológicas para estudar com acompanhamento dos docentes.

A segunda professora Janaina Débora David, da EEB Prof. João Widemann, em Blumenau, teve que adaptar os conteúdos de todas as disciplinas escolares para o aluno Guilherme Albino, do 2º ano do Ensino Médio. Guilherme, que possui Mielomeningocele, Hidrocefalia e Paralisia Cerebral, tem a oralidade como uma forte habilidade. Por isso, a segunda professora Janaina entrou em contato com a família e pediu para que o aluno entrevistasse, por vídeo, sua vizinha enfermeira, para entender melhor os efeitos da pandemia.

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“Nos surpreendemos com o interesse do Guilherme pelo tema e com a sua desenvoltura no vídeo. Então, passei a fazer o meu plano de aula integrando todas as disciplinas em torno de um tema e explorando o audiovisual”, conta a professora. A mãe de Guilherme, Adriana Souza, está sempre presente e auxiliando o estudante em todas as atividades. “Esse apoio dos pais é essencial. Buscamos sempre a questão de empatia, se colocar no lugar do aluno e da família. Sabemos o quão difícil está, mas nós adaptamos tudo para que esse período seja o mais tranquilo possível”, comenta a diretora da escola, Cleusa Furtado Kratz.

O secretário de Estado da Educação, Natalino Uggioni, destaca que a preocupação, carinho e zelo dos professores é muito importante para que o aluno siga aprendendo mesmo fora da sala de aula. Outro ponto positivo é o interesse dos professores e pais em aprender as ferramentas tecnológicas e demais recursos disponibilizadas pela SED, os quais facilitam o ensino ao aluno durante as atividades não presenciais.

“É gratificante ver a dedicação e a entrega ainda maior nesse período por parte de todos os envolvidos, tanto do aluno, quanto dos pais e professores. Esse esforço nos motiva para seguirmos fazendo também o nosso melhor para atender os alunos e professores da Educação Especial”, ressalta Uggioni.

Uso de tecnologia para aprender

Os alunos da Educação Especial, assim como os demais estudantes da rede, estão cadastrados na plataforma Google Classroom, onde professores regentes repassam as atividades pedagógicas que devem ser desenvolvidas nesta plataforma. Para Luciane Kuster, mãe do Gilvan, aluno do 3º ano, a adaptação com o sistema foi muito difícil, já que ela não tinha contato constante com a tecnologia. “Para mim o computador era um bicho de sete cabeças, não sabia nem como entrar na aula on-line. Mas, com a ajuda de todos, fui conseguindo e agora está bem mais tranquilo”, explica.

O Gilvan, que tem Ambliopia e deficiência intelectual, estava bem preocupado até conseguir o acesso. Agora ele já se adaptou e está gostando de realizar as atividades, mas desabafa: “o tempo em casa é muito ruim, tenho vontade de ir para a escola, estou com saudade dos amigos e dos professores”.

A coordenadora de Educação Especial da SED, Tania Maria Fiorini Geremias, relata que a suspensão das aulas presenciais deixou a equipe pedagógica preocupada com o processo de ensino e aprendizagem dos alunos. Por isso, a Diretoria de Ensino deu celeridade ao desenvolvimento dos processos e foram publicados documentos com estratégias de atuação para o público da educação especial. O ponto de partida foi o planejamento para a criação de uma rede de parceria entre todos os professores das escolas.

“O aluno com deficiência requer as mesmas flexibilizações curriculares e um processo de avaliação, como os demais. É coerente respeitar o ir e vir do processo de ensino e aprendizagem, no qual todos os alunos, com mais ou menos dificuldade ou com formas diferentes de aprender estão inseridos. Espera-se que o que prevê a Política de Educação Especial de SC continue sendo colocado em prática: o trabalho com qualidade e equidade”, destaca Tania.

Ensino moldado ao aluno

Cada aluno da educação especial tem uma necessidade específica. Por isso, após o docente de cada área do conhecimento selecionar os conteúdos e as competências que devem ser desenvolvidas pelo estudante, o segundo professor analisa se é necessário fazer adaptações, além de planejar outros recursos e materiais para que o estudante possa compreender o conceito lecionado e concluir a atividade. Em muitas situações, o segundo professor elabora um passo a passo para auxiliar o estudante a resolver a atividade e, em conjunto com os familiares, avalia se o aluno compreendeu ou não a atividade proposta.

Aliás, a comunicação entre pais e professores é ainda mais importante neste período de atividades não presenciais. A orientação é que os pais relatem semanalmente as facilidades na execução, eventuais dificuldades e dúvidas do estudante para que o professor identifique as melhores formas de aprendizagem e defina as estratégias mais adequadas para o aluno nas atividades seguintes.

Por exemplo, o aluno Diogo Correa, do 3º ano da EEB Professora Geni Comel, de Chapecó, tem Transtorno do Espectro Autista (TEA) e necessita de uma maior proximidade com a segunda professora Mariane Tomkiel. Por isso, Mariane está realizando chamadas de vídeo pelo Google Meet para que os dois possam se ver, conversar e para que ele se sinta seguro. Diogo gosta muito de expor suas ideias sobre sociologia e biologia, assim a segunda professora sempre reserva um tempo da aula para que ele possa se expressar. “É muita informação para o Diogo. Pessoas no espectro precisam de rotina. Então eu mando o cronograma para ele se organizar e temos que ir aos poucos para respeitar o tempo dele”, conta Mariane.

Adaptação para as atividades impressas

Durante o período de isolamento social, a Secretaria de Estado da Educação (SED) atende os alunos sem acesso ou com internet limitada com atividades impressas, incluindo a modalidade de Educação Especial. Neste caso, o segundo professor de turma se respalda no planejamento dos professores de cada área do conhecimento para fazer as adaptações necessárias, de acordo com as especificidades dos alunos.

Essas adaptações são acompanhadas nas escolas pelos professores do Atendimento Educacional Especializado/AEE ou por outro profissional escolhido pela unidade de ensino. Nessa função, cabe a este professor orientar e mediar as atividades com os demais professores, para estabelecer uma metodologia de trabalho e esclarecer as dúvidas da comunidade escolar sobre as especificidades da educação especial durante as ações não presenciais.

Josiane Longen, segunda professora da EEB Julius Karsten, de Jaraguá do Sul, entra em contato toda semana com os professores regentes das disciplinas, assim ela faz as adequações dentro de cada componente curricular, visando o pleno desenvolvimento dos alunos e a apropriação dos conteúdos desenvolvidos. Depois que os professores regentes aprovam, Josiane manda os documentos para a impressão na escola. Uma vez por semana, ela vai à unidade escolar fazer a entrega das atividades aos pais e conversar com cada um sobre as dificuldades que se apresentaram nas atividades.

Orientações específicas para alunos com deficiência visual e auditiva

As orientações da SED também consideram estratégias para que os alunos com deficiência auditiva possam receber as atividades de forma acessível e consigam resolvê-las com autonomia. Para esses estudantes, os professores têm priorizado a gravação e envio de vídeos em Libras, levando em conta que recursos visuais facilitam o processo de aprendizagem desse grupo.

Design sem nome 8Para gravar esse material, os educandos solicitam com antecedência o planejamento de atividades dos professores para conseguir traduzir ou adaptá-las para os alunos, seguindo os padrões de gravação de vídeos em Libras. Quando for disponibilizado para a comunidade, a produção do vídeo em Libras também deve, quando possível, incluir legenda em português, já que alguns alunos já têm a segunda língua adquirida.

No polo de Atendimento Educacional Especializado em deficiência auditiva da EEB Julius Karsten, em Jaraguá do Sul, a professora Franciele Martins de Abreu Calduro e o Instrutor de Libras, Marcelo de Oliveira Freitas, estão atendendo os alunos através das ferramentas disponibilizadas pela SED, além de usar o Whatsapp para alunos sem acesso ao computador ou com internet reduzida. Eles adaptam as atividades para textos, fotos e, principalmente, vídeo. A devolutiva dos anos também é por meio de vídeos. A escola ainda está elaborando um canal no YouTube, o “Libras é inclusão”, com o objetivo de disponibilizar vídeos de Literatura Surda e Literatura infanto-juvenil traduzida em Libras.

“Procuramos sempre em todas as estratégias possíveis fazer com que nossos alunos, todos eles, se sintam incluídos no espaço escolar. Não temos medido esforços para que isso também aconteça com as aulas não presenciais. Nesta época de pandemia, o olhar é ainda mais ampliado, tendo todo o cuidado em atender a individualidade de cada aluno”, salienta a diretora Margarete Menestrina Luzzani.

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Andreia Cristine Schork, mãe de Arthur, que é estudante da EEB Julius Karsten e tem deficiência auditiva, grava vídeos apresentando os trabalhos do aluno. Enquanto Arthur explica em libras, ela traduz para o português. “Fazer a voz dele nos vídeos me deixa emocionada e honrada, são muitos treinos, grava dez a quinze vezes até chegar a resultado satisfatório. Entender o conteúdo, preparar o meu filho antecipadamente para o assunto, interpretar para Libras e após traduzir para o português finalizando com a voz nos leva a reflexão e a empatia com os profissionais da educação”, declara Andreia.  

Aos alunos com deficiência visual, as atividades propostas no ambiente virtual devem ter recursos de áudio para serem acessíveis aos estudantes. Quando o professor gravar um vídeo, deve tentar descrever em áudio os elementos e situações que estão sendo apresentados, assim como no caso de imagens, gráficos e mapas. No caso de vídeos extraídos da internet, a prioridade deve ser por arquivos acompanhados por áudio, oferecendo ao aluno a possibilidade de entender imagens que estão sendo mostradas.